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O TEMPO NA QUARENTENA

Atualizado: Set 6


O TEMPO, O CAOS E O RITMO

“ (...) o tempo, o tempo, o tempo e suas mudanças, sempre cioso da obra maior, e, atento ao acabamento, sempre zeloso do concerto menor, presente em cada sítio, em cada palmo, em cada grão e presente também, com seus instantes, em cada letra dessa minha história passional (...)”

Lavoura Arcaica, Raduan Nassar




ISOLAMENTO SOCIAL, PANDEMIA E CAPITALISMO


Estamos vivendo um momento singular historicamente: para situar os que lerão essas linhas em tempos futuros, estamos em plena pandemia do COVID19, esse vírus que está assolando a humanidade que se considera tão evoluída tecnologicamente ao final de Maio de 2020. E, a partir desta realidade, nossas vulnerabilidades estão se sobrepondo à toda superficialidade mercadológica e as inconsistentes máscaras do consumo arraigadas ao egoísmo, à competição, ao medo da escassez, e a falsa imagem de felicidade e satisfação que temos construído ao longo da história. E é através de todo esse cenário que se revela a oportunidade de se desintegrar estas verdades imutáveis, absolutas e obsoletas. Um momento para se permitir perceber a imensa fragilidade humana e sensibilidade tão reprimida, e permitir, finalmente, vir à tona e poder expressarem-se deliberadamente, a fim de definir novas formas de existir, pela sobrevivência da essência humana e da natureza. Sim, a Senhora Natureza, a maior nutridora de todas as matrizes. A mesma que dispõe da vida de todos os seres. E inclusive que rege o nosso tão sagrado tempo aqui na sua casa. E infelizmente, tão subestimada sob os valores construídos pela produtividade da Era Industrial nos séculos que antecedem este nosso e a afirmação do capitalismo enquanto organização social, como nos mostra belamente o filme “ A Lavanderia” de Steven Soderbergh, com Antonio Banderas, Maryl Streep e grande elenco.


AUTOPERCEPÇÃO E QUESTIONAMENTOS COMO ALICERCE PARA O FUTURO


Sim, não importa qual o seu cargo na empresa, qual a situação de vida que você se encontra nesse momento, estamos todos, tendo que olhar para nós mesmos, nossa relação com as pessoas, com o nosso consumo, com o as políticas públicas, nossas necessidades reais, nossas famílias e relações que são saudáveis ou tóxicas, nossos pensamentos saudáveis ou tóxicos, nosso caos, nossos traumas, nossas dívidas, dúvidas, valores pessoais e o que realmente importa para cada um de nós, e principalmente: nosso bem mais precioso: o nosso tempo. Se não o fizermos, se não pararmos agora e olharmos e escutarmos...o que mais poderá acontecer?

PRODUTIVIDADE PARA QUEM?


É preciso lembrar constantemente que não estamos de férias, não estamos precisando ser produtivos, não precisamos chegar em nenhum lugar além do que estamos. Nós chegamos. Este é o momento que a humanidade se encaminhou. O grande momento. O topo do caos: Uma guerra biológica invisível, polarizações políticas extremistas, caos familiares, morte humana, de animais, de florestas, de águas. Violências revelando a fragilidade humana. Mensagens tóxicas da economia e dos resultados acima da humanização e sensibilização a poluir nossas “redes sociais”, que seria um espaço ideal se priorizasse relacionamentos e aprendizados, mas acabam virando um bombardeio de vendas onde empresas investem 70% do seu lucro para aparecer em meio a todos os seus interesses dentro das mídias que você acessa. E outras mensagens subliminares de perfeição e artificialidade desnecessárias a impor realidades no seu imaginário. Causando, desenfreadamente, uma poluição por excesso de informação e de utilização de diversos conceitos e gatilhos mentais de persuasão. E sim, impedindo que possamos acessar conhecimentos valorosos, significativos, nutritivos, amorosos a enriquecer a nossa caminhada com sensibilidade e sutilezas. Vivemos a ditadura de valores distorcidos inclusive impostos pelos algoritmos.


PRECISAMOS DE ESPAÇO DE RESPIRO


Reflexões e Espaço de Escuta é o que precisamos, Seres de Duas Pernas, como se autodenominam os índios norte americanos. Escuta esta, reflexiva e necessária, para fazer nascer, aos poucos, uma possível reinvenção! Essa é a realidade que penso que estamos realmente interessados em fazer acontecer. Ou estava tudo indo muito bem e de repente um “Deus Ex Máquina” chamado Corona Vírus chegou para trazer a peste nesta vida fraterna e amorosa sob a Terra? Ironias à parte, o que penso que realmente nosso espírito foi convocado a trabalhar nesse período traumático é numa real Reinvenção - do trabalho, das escolas, do nossos sistema de trocas, do aproveitamento do tempo, das relações humanas, da informação, da acessibilidade, da igualdade de gêneros e raças, do diálogo respeitoso e construtivo, do renascimento da linguagem e a confiança nas palavras, da reinvenção dos poderes públicos, das leis, dos governantes, da ideia de liderança, das práticas de colaboração, da ideia de nutrição, de se estar com as crianças, de estar na vida, e vivendo o seu tempo.




CAOS COMO POSSIBILIDADE DE REORGANIZAÇÃO

Dentro deste contexto, penso que o caos é a grande possibilidade de podermos fazer novas escolhas. De abraçarmos essa infelicidade pandêmica, que acontece dentro e fora de nós, esse vírus, essa necessidade de se apegar àquilo que construímos, mesmo sabendo que não há mais a possibilidade existencial de seguirmos deste mesmo modo, mas sim, é o momento de ‘Criarmos Espaço’. Refletir: Como se proteger e realmente acessar o que é essencial em nossas vidas? Como colocar limites, ou melhor, como reconhecer os meus limites? O que quero comer? Assistir? Ler? Ouvir? Como tenho me nutrido a cada dia...? A cada instante? E nutrido, verdadeiramente, as relações?

CAOS, RITMO e TEMPO COMO CICLOS SAGRADOS DA VIDA

O título desta reflexão é para trazer a vocês algo que tem me feito parar e, realmente, resignificar, ainda mais, estas palavras em minha experiência humana e artística em tempos de isolamento social, reflexão e reorientação humana:

O que é o tempo?

Tenho me perguntado, enquanto vejo meu filho de cinco anos crescer e aprender coisas novas a cada instante. E assim como acontece com essa existência, mãe e filho, que sou capaz de observar como uma diretora da cena, percebo essa mágica acontecer na minha própria experiência, aprendendo e me desenvolvendo (e amadurecendo) a cada sol que levanta e percorre (veloz) o céu. Mas então, o que fazemos de fato com nosso tempo, com a nossa vida? Encaramos nossa vida de forma sagrada e valiosa? Ou entregamos este ouro à uma pseudo verdade imposta ou manipulada por algo que está alheio ao meu espírito dentro desta existência tão complexa e misteriosa que chamamos VIDA?


CAOS E PAUSA

Tenho medo do caos? O que é o caos? A inversão de valores? Ou a tentativa de reestabelecer um princípio em meio a infinitude existencial? É preciso aceitar o caos para reestabelecer uma nova ordem? É preciso se permitir uma pausa? Para olhar e ver, e depois de ver, enxergar? O que eu preciso fazer diariamente para me sentir bem com meu ritmo interno e poder doar o meu melhor ao mundo? Qual é o meu ritmo interno pessoal, independente do que a “sociedade” impõe? Como é o meu funcionamento pessoal a partir da minha rotina, da rotina dos que moram comigo, e daquilo que é essencial para eu me sentir bem? Será a partir desse bem, que poderei me doar, criar, compartilhar, expandir, ou será expandindo, compartilhando, doando e criando que me sentirei bem? O que realmente tenho de valioso dentro de mim que enriquece meus dias e que por mais singelo que seja, necessito trocar, partilhar e multiplicar com outras pessoas, ou às vezes, já me percebo partilhando de forma tão orgânica e natural que...uau! Nunca tinha pensado nisso! - Talvez com isso, que é tão natural em mim, e que me trás tanta paz e ‘glória interior’, possa colaborar para as pessoas viverem melhor também, se sentirem acolhidas, e portanto, por alguns instantes mais felizes e nutridas. - Será que é a partir dessa nutrição interna, de corações aquecidos, de tempos bem aproveitados com quem se ama, de vidas sentidas com prazer, paixão e entusiasmo que poderemos, com sorrisos sinceros, admirações recíprocas, e irmandades reconhecidas, juntos, criar um mundo cada vez melhor? ( para os que ficam e os que virão depois de nós?) E quando eu digo criar, não imagino um passe de mágica feito em sete dias, mas visualizo um processo a partir de uma decisão de rota, a partir de um norte e uma direção bem definida, mesmo que utópica, mas uma construção constante e ritmada, um prazer de arregaçar as mangas, diariamente, cantando, e macerando, lapidando, talhando, sovando o pão nosso de cada dia a polvilhar com amor o tão belo trigo agora entre os dedos transmutado em farinha à nos alimentar após a presença alquímica do fogo. Sim, com a mão na massa, literalmente, honrando com alegria o total sentido de integração nesse servir. Caso não estejamos a viver assim, ao meu ver, este é o momento de recriarmos essa realidade. Afinal, como diria Calderon de La Barca – “ A vida é sonho. E os sonhos, sonhos são”. Vamos recomeçar? De um novo ponto, agora: o de dentro. E lá dentro, bem no fundo, há o seu silêncio. Capaz de te acolher e te dizer:


“Estou aqui para você. Faça o que nutre nosso elo sagrado. E te faça feliz. Eu quero você feliz. Esse é o mundo que sonhamos juntos. E é para isso que a humanidade faz parte da natureza para celebrar essa abundância.”


Com todas essas reflexões gostaria de finalizar com uma frase:

Acredito que somente experimentando nos fazermos felizes, de fato, é que poderemos criar um mundo saudável dentro de casa. De todas as casas.



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